terça-feira, 4 de abril de 2017

Khronos e eu

Todos os dias eu me levantava escova os dentes e saía quintal afora, depois de correr pelos pomares até a exaustão, seguia para banho, vestia roupa, almoçava e junto com minha linda pasta de couro preta e meu potinho rosa e branco rumava pelo calipiá na companhia de minha tia para escola.
No final do dia, depois de ter corrido durante todo recreio e criado mil e uma histórias, vivendo longas horas na minha cabeça, tornava a passear pelas árvores do reflorestamento voltava para minha casa. Nos finais de tarde via televisão de cabeça para baixo, me escondia entre as azaleias e outras árvores: salvava o mundo, fazia experimentos em meu laboratório, onde misturava pasta de dente, enxaguante bucal e qualquer outra coisa.
Relembrar minhas andanças de patins na área da casa e a história do saci que se escondia no bambuzá transcende o ato mnemónico, pois ao refletir sobre minhas aventuras, sobre minha vida em um tempo nem tão longínquo, penso sobre o tempo e a liberdade.
Notei que enquanto eu estendia roupa, pensava sobre o trabalho, a pesquisa, a produção, o mundo, a miséria, a solidão.... Não vivo mais o tempo presente, estou presa em um vórtex, viajo ou me escondo no passado e no futuro, não sou dona do meu tempo, perdi a minha soberania.
Luto contra esse processo incessantemente e com toda força que me restou, sempre me pergunto se posso ser livre se meu tempo não é meu? Ele é do capital, ele é dos outros, ele é da produtividade, está encaixotado entre deveres, disciplinas, padrões de consumo.
Gostaria de saber para onde foi o desejo?
Quando foi que comecei a ser devorada pelo titã do tempo? Quando ele me mastigou e me cuspiu como criatura morta, como sombra?
Não! Não quero e nem posso me render a violência do tempo dividido, disciplinado, que não permite ver o hoje, que não permite, nem o sonho, nem o desejo.
Recomeço minha busca quixotesca para ser senhora do meu tempo, da minha vontade, enfim ser senhora de mim.  

domingo, 29 de maio de 2016

De olhos bem fechados...

Minha tia tinha alguns anos de estrada e uma cozinha de móveis antigos de madeira, todas as prateleiras eram recheadas por latas coloridas, potes de temperos e todos os tipos de pimenta que se possa imaginar.
Como era de costume nos verões sua casa ficava cheia de gente, filhos e netos que vinham de outros lugares para comemorar as festas de fim de ano; logo sua cozinha era entulhada de gente e comida.
Escrevo sobre essa cena pelo menos doze anos após seu acontecimento, então  é possível que minha memória me traia, que ela reinvente essa narrativa a partir das minhas ultimas experiências.
Como de costume na rua da minha casa as pessoas deixavam as portas das casas abertas, todo mundo que morava ali se conhecia a tanto tempo, fato que me deixava plenamente a vontade para passear de pijamas entre uma casa e outra.
Camiseta de bloco de carnaval vermelha, calça listrada, meias e chinelos, os cabelos nunca eram penteados, então ninguém observava aquilo com espanto. Assim que me levantei fui até a casa da minha tia, ver meus primos e tomar a cervejinha matinal e um licorzinho, afinal era fim de ano. As panelas batiam, a família falava alto, um entrava e outro saia, enfim acabei reclamando de meu coração partido. Minha tia dona de uma cozinha que mais parecia um laboratório de alquimia levantou os olhos por cima dos óculos e disse:
- Não existe apenas um amor, outro irá bater a sua porta!
Confesso honestamente que pensei em maldizer, queria que ela fosse as favas, o que sabia ela, dos meus três anos ao lado de alguém e das borboletas que meu estômago tinha constantemente, que poderia saber sobre minha infinita solidão naquele natal em que não presentearia e nem seria presenteada? Ela não sabia as cores que cresciam dentro de mim, ela nem sabia que tudo que eu desejava era retornar e não ir em frente.
Quatro anos de faculdade, muitas viagens e aquele sentimento foi ficando pequeno, enfim sumiu, queria andar correr em outra direção e só minha tia conhecedora dos temperos, das tintas e telas é quem tinha razão.....
Chovia tanto naquela sexta-feira que não dava para enxergar os postes do outro lado da rua, o diluvio derrubava metade da cidade com trovoadas, mas nós o enfrentaríamos com bravura e bastante bebida.
Músicas do Milton Nascimento, fumaça de cigarro, chuva e filosofia, sabíamos tudo sobre o mundo.
É engraçado que me lembro da posição que as pessoas ocupavam na varanda de uma amiga, lembro que a chuva enfim cessou que eu descia as escadas úmidas para que minha noite encontrasse seu fim provisório, então fechei os olhos...
Não vi as escadas, mas sentia as extremidades do meu corpo formigarem, sentia cada fagulha que explodia naquele quintal, sentia o calor e umidade do ar, mas sequer consegui vislumbrar os braços que me enlaçaram; finalmente escutei as batidas na porta.
Não saberia contar em ordem cronológica o que se seguiu durante três anos, a história se ramificou, criou caminhos, não seguiu linear, foi indo feito passarinhos que voavam de um lado para o outro, daqueles que brincam no céu.
Não sei ainda consigo ver alguma coisa quando me aninho, quando me pacifico ali, não preciso olhar, confio, abri a porta de olhos fechados.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Buena Vista

Como um personagem de filme antigo, chego em minha casa com um casaco negro e pesado de inverno. Observo o céu nublado que esconde os fios de luz da lua.
Sirvo uma dose generosa de wisky em um copo bonito dos tempos de casamento da minha mãe. Sem nenhuma pedra de gelo sorvo aquele liquido em pequenos goles. A música para acompanhar o fim de mais um dia não seria outra se não aquela música, seria um bolero? Sei que ela é cubana.
Desenho uma longa cena do cinema em minha cabeça. Protagonizo um filme de uma mulher triste exausta.
A voz de Efrain canta mansa uma melodia triste em uma língua que conheço pouco. A realidade é que a cena não é muito glamourosa, pois estou sentada em uma cadeira velha de metal, escrevo sobre a pia da cozinha.
Não existe batom em meus lábios, nem alguém que chegará repentinamente para falar sobre as dores e os medos que me atormentam.
Na companhia dos cães que se aninham no tapete em frente a geladeira, tento digerir mais um dia, mais uma semana, mais uma dor e mais um fio de esperança.
Outro gole, de cotovelos pousados na pia de metal. A ultima olhadinha nos rascunhos que serão publicados para ninguém ler. Outra olhada furtiva pela janela, o jornal da noite atrapalha a orquestra cubana. A cachorrinha espreguiça. Escrevo meia duzia de coisas. Mais um pequeno descanso, a cabeça encosta nos braços, me arrepio, penso nas cenas tristes no decorrer da semana, penso nas boas coisas.
Encerro mais alguns dias.
Faço alguns planos de morar em outro estado, em outro país. Penso em me aventurar e mudar o mundo e encerro um texto trivial com mais uma pequena dose, mais um sonho, uma outra canção.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

A saudade não marca hora

A verdade seja dita mesmo que por aqui, eu nunca me lembro de você nos dias certos.
Saudades não marcam as horas, os dias e meses para aparecerem, elas são sentimentos repentinos muito bem acompanhados daquelas lembranças.
Nos dias dezessete de cada mês eu nunca consigo me lembrar, mas me recordo todos os dias de alguma história triste, engraçada ou comovente.
Seria impossível  lembrar de data ou hora, programar saudades nunca!
Você sempre aparece nas horas de uma boa festa, de uma mesa farta, de um brinde, de um amor.
Nunca consegui agendar  meu amor e com meu maior, mais confuso e dolorido amor diferença não haveria.
Pois amores como o seu não se programam, não se marcam na agenda, muito menos se faz data comemorativa, amor assim vive em cada pedaço, em cada célula, amor assim como apenas o seu sabe ser, esses percorrem uma existência nada linear, esse amor ocupa cada dimensão do viver.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O coração com trilha sonora

Alguém me disse que o amor sem trilha sonora de nada vale. Mas, acho que  o amor sem trilha sonora seria menos dolorido nas ausências que nos trazem por aí.
Estou olhando os discos nas paredes do quarto e pensando o que eu farei com eles. Assim como eu penso o que será feito de todos os papeis de doces, os desenhos, os bilhetes, os livros e aquilo que é trocado. O que se faz com os cobertores?
O amor não deveria ter trilha sonora. Ele deveria ter apenas canções de felicidade, não aquelas de medo, não aquelas de saudades, de fato são belas, mas são tão doloridas. Elas apenas inspiram a escrever aos desconhecidos sobre uma dor que se faz companheira. Você realmente desejaria que alguém viesse curar suas feridas, imagina o quanto seria lindo se ele estivesse ali de cabelos umedecidos com os braços bem abertos para acolher nos longos braços seu corpo dolorido da viagem.
Quantas vezes você irá olhar para desconhecidos e chorar, quantas vezes você irá disfarçar a dor, quantas trilhas sonoras serão necessárias para doer mais ainda.
Mas amor para ser amor deve ser dolorido regado pelo álcool e com aquela trilha sonora, da primeira noite de blues juntos, do primeiro beijo na beira da escada?
E me entrego a minha trilha sonora, pedindo para você voltar, recolhendo os cacos do que me resta, imaginado acordos que criariam a paz até mesmo no Oriente Médio.
O amor não deveria ter trilha sonora, abriria uma exceção para ter trilha sonora de quando seus longos dedos entrem pelos meus cabelos, aí nas noites de amar o amor deveria ter trilha sonora.


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

casa

Na vitrola está rolando aquele som de quando os dez anos eram presentes... Aquele som que o irmão mais velho vem mostrar, dizer ouve isso aí que é uma coisa que vale a pena.
Se revirar os guarda-roupas nem fotos, nem nada, mas muito daqueles brinquedos dos dez anos ou menos. Aquele cachorro sniff-sniff que era sucesso entre dez e dez garotas aos dez anos. Os cães já não são mais os mesmos, nada da Diana do Boca Livre com suas manchas e seu olhar de passado. Ali naquele quintal vazio fica apenas uma reforma pela metade, uma chuva esperada junto as guimbas de cigarros, junto a uma ausência nunca compensada.
Nessa casa que um dia foi lar, nada de primos ou aparelho de som na sala que tocava o doce Chocolate, nada de tardes de domingos e piscina de quintal armada.
Nessa casa sem vós para pentear cabelos e falar sobre o bairro da Estiva, nada de tios para falar sobre o Rio de Janeiro, nem mesmo um passo firme para corromper e dar canivetes.
Hoje os mineiros cantam em uma casa vazia de vida, vazia de gente. Hoje a poesia encontra um vácuo.
Não se encontra hoje o consolo  de um berro, de um grito, apenas um silêncio incômodo. Não resta apelido algum, coração algum, sobra hoje um remedo de alegria. Junta-se hoje a alegria um riso sem graça hora triste, hora vago. Não se corre mais na lotérica, não se corre no quarto, não se empurra carro.
Nessa casa ninguém ouve o chinelo arrastando, nem mesmo sente-se o cheiro de mato, nem os cavalos andam atrás de uma sombra envelhecida.
Essa é uma casa de lembranças, gente que não ficou e gente que teve que ficar, casa de cômodos vazios e gente solitária que se une e se separa.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Eu e as Conjunções

Adquiri um hábito durante a graduação, de reler tudo aquilo que foi escrito um tempo depois, de um hábito cientifico, tornou-se uma mania, um sentimentalismo. Aquelas coisas que  eu faço quando não tenho muito para fazer e muito a pensar. Revendo esse blog com todas as minucias de crueldade notei o quanto meus textos são pautados de conjunções adversativas, cheio de pausas. Fiz uma busca muito pequena em meus devaneios e descobri que sou lotada de "contudos" porque aqui dentro tudo reina como uma balburdia.
Tomei decisões cheia de certeza, PORÉM, na mesma academia em que apreendi a revisitar meus pensamentos de forma crítica, também entendi que somos contradições que andam, falam e amam.
Ainda não consigo conceber essa ideia que me parece um bichinho incomodo e, quando olho aquelas letras que juntei em um espaço, em tempo ainda não entendo como meu coração se fez, ou mesmo se refez. Tento interpretar um passado que me foi caro, como aos 18, aos 21 para um breve salto aos 27 ou mesmo aos 26 tomei caminhos que hoje não reconheço. Mesmo que eu tivesse medo, gritasse coragem, lá estavam as conjunções me oferecendo as mãos para darmos um passeio.
Ainda em meio liquidez parafraseando um certo autor, revejo e percebo uma constante na qual me perdi, da qual voltei faz tão pouco tempo e cá entre nós apenas voltei porque aquele que me guardava as incertezas hoje não pode mais me deixar caminhar pelo meu desconhecido campo, mundo aquele com o qual eu me comunicava apenas quando "sim", insistia em transformar-se "mas".