quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Poesias, canções e xícaras...

A toalha de mesa com fundo amarelo, com flores para decorar, o calor era sufocante, as lágrimas correntes, não conseguia erguer a cabeça para dizer ou sequer para encarar a vergonha que eu carregava, por estar sentindo tudo aquilo.
Dias atrás eu vesti preto, pressentindo que era um dia de luto, dia matar alguma coisa em mim, mas no dia de luto nada de lágrimas, nada de ressentir, nada de brigar, até piada ao redor daquilo que morreu aconteceu, quem sabe aquela do português podia rolar.
Nos outros dias criei alguma esperança, continuei com muitas piadas, sempre rodeada, bem pintada, bem vestida, bem mascarada. Sentia tanta falta que preferia esconder, algumas madrugadas sem sono,lembrando os filmes, os risos, suas malditas mãos macias, que me deixavam inquieta, com o coração a mil entre a boca e o peito.Seu nome estava em todas as bocas, quando eu fingia ria, quando eu gritava e pedia silêncio.
O tempo se arrastou, ganhei apoio, perguntas, canções, menos quilos, menos sono. A cama se tornou espaço de tortura, enquanto eu rolava e evitava recordar.
Depois de algum tempo aliviei meu peito, primeiro perguntei depois afirmei, se alguém tem o direito de criar um espaço dentro de mim, pra depois se mudar e não deixar um bilhete, sem regar as flores, alimentar o cachorro. Alguém chega muda a disposição dos talheres, quebra os copos americanos, deixa a tv ligada e os pratos na pia, sai sem dar aviso, leva o que de melhor você tinha, seus livros preferidos, seus poemas, seus perfumes e deixa só aquilo que você não quer lembrar.
Meu corpo adoeceu, sofreu, sofre, queima, esconde nas gavetas.
Chegou o tempo de seguir em frente? teria você seguido em frente, comprado xícaras para tomar café?  cortou os cabelos? estudou? trocou aquela cara preguiçosa das manhãs?
Lembrei que você adora dormir no silêncio e no escuro, que você adora verde e branco, que se irritava com meu excesso de energia, com meu comunismo, com minhas crenças, mas que adora minhas piadas, meu riso fácil. Como eu também adorava ficar entre as panelas e temperos para você. Lembrei da sua cara de fome e satisfação.
Lembrei que eu sinceramente não sei se você tinha o direito de ir embora quando eu disse pra você ficar. Porém me lembrei que eu devo viver, que devo rir muito, porque tudo não passa de uma piada, porque vou voltar a rir de outras coisas que não sejam essas coisas que eu matei tentei matar, que eu não desejo matar, porque me lembrei do seu cheirinho, da sua força, da sua calmaria do seu sorriso de dentes bobos.
Lembrei que tudo vai passar, que as coisas podem melhorar e a gente pode existir, mas também lembrei que esse  "a gente" pode nunca mais vir a ser, mas que o mundo não parou porque meu coração se partiu, porque não vou discutir politicamente com você.
Lembrei que as cortinas foram abertas e tudo vai se reconstruir, que tudo pode mudar, poder ser melhor com ou sem você, que eu quero ver você mesmo, que eu quero poder sentir suas mãos (que tem as melhores almofadinhas do mundo).
Lembrei que as pessoas se reinventam, voltam a sorrir, mudam de cidade, de profissão, criam alegrias e voltam a viver. Claro que o convite ainda é seu para essa nova casa, pode trazer as xícaras novas, as poesias roubadas, mas se você não vier, ganho nova poesia, novos livros, novas canções.